Montei uma produtora de audiovisual em São Paulo mas o mercado não me respeitava. Até que...
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Ronaldo riu antes de eu terminar a frase.
Não foi uma risada cruel, dessas que a gente reconhece na hora e já sabe se defender. Foi pior. Foi uma risada de quem acha graça mesmo, sincera, do tipo que você dá quando uma criança fala que quer ser astronauta.
— Você vai dirigir um curta-metragem — ele repetiu, só pra ter certeza de que tinha ouvido direito, enquanto servia mais vinho pra ele mesmo. — Camila, você organiza produção. Você é ótima nisso, viu, ninguém tá tirando isso de você. Mas dirigir é outra parada.
Isso foi numa festa de fim de ano da Fábrica Imagem, a produtora onde eu trabalhei quatro anos como assistente de direção, dezembro de dois mil e vinte e dois. Eu tinha acabado de contar, meio sem graça, que ia me inscrever num edital de fomento com um roteiro que escrevi sozinha, à noite, depois do expediente. Não pedi opinião de ninguém. Só falei, meio empolgada, porque eu tava empolgada mesmo.
Ele nem foi mal-educado. Isso é o pior de tudo, quando eu penso hoje. Ele foi só... condescendente. Do jeito que ninguém percebe que tá sendo cruel porque acha que tá sendo gentil.
Saí da Fábrica Imagem três meses depois disso. Não foi só por causa daquela festa — tinha um monte de coisa acumulada, tipo eu montar toda a logística de um comercial premiado e o crédito de "direção de produção" nunca aparecer com meu nome, só o do Ronaldo. Mas confesso que aquela risada ficou martelando de um jeito que as outras coisas não ficaram.
Trabalhei quatro anos naquela produtora. Entrei com vinte e três, saí com vinte e sete. Fui a pessoa que resolvia tudo que dava errado numa filmagem — ator que não chegava, gerador que caía no meio de uma diária cara, chuva em externa sem plano B. Era boa nisso, de verdade, e por muito tempo achei que aquilo bastava, que ser indispensável nos bastidores era uma forma de reconhecimento que valia a pena.
Só que reconhecimento de bastidor não aparece em nenhum lugar depois. Lembro de um comercial que a gente fez pra uma rede de bancos, que ganhou menção honrosa num festival de publicidade. O Ronaldo foi receber o prêmio sozinho, subiu no palco, agradeceu "toda a equipe", num microfone que ninguém da equipe ouviu de perto porque a gente tava lá atrás, na plateia, batendo palma. Eu tinha resolvido três crises naquela diária que ele nem sabia que tinham acontecido. Ele achava que o dia tinha corrido liso porque era um diretor bom. Corria liso porque eu não deixava ele ver o caos.
Teve uma vez, isso já no meu terceiro ano lá, que eu sugeri um enquadramento diferente pra uma cena, numa filmagem de documentário institucional. Ele descartou na hora, sem nem terminar de ouvir. Duas semanas depois, na sala de edição, ele "descobriu" que aquele mesmo enquadramento funcionava melhor — e passou a chamar de "a visão dele pro projeto" nas reuniões seguintes. Eu não disse nada. Achei, na época, que reclamar ia me fazer parecer mesquinha, do tipo que disputa crédito por picuinha. Hoje eu sei que não é picuinha quando acontece toda semana, com nome e sobrenome diferente cada vez, e o seu nunca aparece em nenhum.
Abri minha própria produtora em fevereiro de dois mil e vinte e três. Chamei de Ponto Cego Filmes. O nome era meio irônico, uma piadinha interna que só eu entendia — ponto cego é aquele lugar que ninguém vê, mas que existe, que faz parte do quadro inteiro mesmo sem aparecer.
Os primeiros meses foram exatamente do jeito que todo mundo avisa que vai ser e a gente não acredita até acontecer. Sala alugada dividida com um estúdio de podcast, dois freelancers que eu chamava conforme o job aparecia, e um notebook que travava toda vez que eu abria o Premiere com mais de duas timelines.
O mercado de produção audiovisual em São Paulo é pequeno de um jeito que ninguém de fora imagina. Todo mundo se cruza nos mesmos três, quatro eventos por ano. Todo mundo sabe de onde todo mundo veio. E o boato sobre mim correu rápido: "a Camila da Ponto Cego é a ex-assistente do Ronaldo que resolveu abrir produtora." Como se isso resumisse tudo o que eu era.
Fechei alguns jobs pequenos naquele primeiro ano. Vídeo institucional pra uma rede de academias. Making of de um evento corporativo de uma fintech. Coisa que paga o aluguel, mas que não te coloca em lugar nenhum. Em cada reunião de pitch que eu perdia pra uma produtora maior, sempre tinha alguém depois me contando, meio sem querer, meio querendo, que o motivo tinha sido "eles preferiram um nome mais consolidado". Nome consolidado, no nosso mercado, é só um jeito educado de dizer "homem, de preferência branco, de preferência mais velho, de preferência com currículo em produtora grande".
Teve um pitch, em maio de dois mil e vinte e três, que eu ainda lembro com o estômago apertado. Era pra uma marca de cosméticos, campanha de lançamento, orçamento bom pros meus padrões da época. Preparei um deck inteiro, referências visuais, roteiro de tratamento, três semanas de trabalho não remunerado só pra chegar naquela sala. Sentei na frente de quatro pessoas do marketing e apresentei o melhor que eu sabia apresentar. No fim, um dos caras — nunca vou esquecer o nome, Marcelo Prado, diretor de uma produtora bem estabelecida na Vila Olímpia — fez questão de comentar, na saída, enquanto eu guardava o notebook: "Curioso ver uma mulher pensando em plano sequência. Geralmente vocês preferem coisa mais... intimista." Ele sorriu quando falou, como se fosse um elogio.
Não ganhei aquele pitch. Fiquei sabendo, meses depois, por uma amiga que trabalhava na agência, que a decisão final tinha sido praticamente entre mim e a produtora do Marcelo — e que meu material, tecnicamente, tinha sido avaliado como superior. Ganhou ele.
Comecei a evitar esses eventos de mercado depois de um tempo. Não porque eu tivesse desistido, mas porque cada vez que eu ia, voltava pra casa com uma sensação esquisita de ter sido revistada — como se todo mundo ali estivesse checando minhas credenciais antes de decidir se eu merecia estar na sala.
Em julho de dois mil e vinte e três eu quase fechei a empresa. Literalmente cheguei a fazer as contas de quanto custaria desmontar tudo, devolver o notebook que ainda tava sendo pago em doze vezes, mandar mensagem pros dois freelancers agradecendo. Fiquei três dias com aquela planilha aberta, sem coragem de mandar pro Diego — meu contador, não confundir com nenhum personagem de outra história, o mundo é pequeno mas não é tão pequeno assim.
Foi nessa mesma semana que liguei pra minha mãe, tarde da noite, chorando de um jeito que eu não fazia desde adolescente. Ela mora em Sorocaba, sempre trabalhou como professora de matemática do ensino fundamental, e nunca escondeu que achava arriscado demais eu ter saído de um emprego fixo pra "isso de produtora", palavra que ela também usava com um certo cuidado, tipo quem não entende bem do que se trata mas confia mesmo assim.
— Você já tentou de verdade, filha — ela disse, depois de me ouvir chorar um tempo sem interromper. — Ninguém vai te julgar se você voltar pra trabalhar em produtora de novo, com carteira assinada, um salário certo todo mês.
Não era isso que eu queria ouvir, mas entendi de onde vinha. Minha mãe criou eu e meu irmão sozinha depois que meu pai foi embora, contando moeda pra fechar o mês, e pra ela segurança financeira nunca foi luxo — foi sobrevivência. Fiquei quieta no telefone um tempo, só ouvindo ela respirar do outro lado da linha, e no fim ela falou uma coisa que eu não esperava:
— Mas sua avó também achou loucura eu largar o interior pra vir estudar em São Paulo sozinha, com dezoito anos. As pessoas acham loucura tudo que elas nunca tiveram coragem de fazer.
Não decidi nada naquela noite. Mas guardei aquela frase, e ela voltou pra minha cabeça meses depois, de um jeito que eu nem podia imaginar na época, bem na hora de escrever a cena da avó no roteiro — o que fazer quando quem devia te apoiar só sabe enxergar o risco, nunca a possibilidade.
Não fechei a empresa. Decidi dar mais três meses, um prazo simbólico que eu inventei sozinha só pra ter uma linha no chão, alguma coisa que não fosse desistir imediatamente nem continuar sem prazo nenhum pra sempre. Foi dentro desses três meses que veio o contrato do Roberto Ventura.
O que me salvou naquele mês, ironicamente, foi um cliente que eu nem queria pegar.
Chamava Roberto Ventura, dono de uma rede de concessionárias de carros de luxo, três lojas em São Paulo, uma em Campinas. Ele queria um vídeo institucional grandão, desses de aniversário de empresa, com direito a depoimento emocionado de funcionário antigo e trilha sonora orquestral. O tipo de vídeo que eu, sinceramente, acho meio careta. Mas o orçamento que ele ofereceu era mais que o dobro de qualquer coisa que eu já tinha fechado.
Aceitei. Precisava aceitar.
O problema é que o Roberto tinha uma ideia muito clara de como o vídeo dele devia ser, e nenhuma dessas ideias combinava com nenhuma decisão criativa que eu tomava. Ele queria mais brilho. Mais close no logo. Menos "arte", palavra que ele usava sempre com um tom meio de deboche, tipo quem desconfia que arte é desculpa pra enrolar prazo.
Teve uma reunião de alinhamento, na segunda semana de agosto, que resumiu tudo. Eu tinha levado uma proposta de abertura mais silenciosa — câmera parada, um funcionário antigo entrando na loja de manhã cedo, luz batendo no capô dos carros antes de qualquer música começar. Achei bonito. O Roberto olhou o storyboard por uns cinco segundos e falou, na frente de duas pessoas do marketing dele: "Isso parece vídeo de velório. Quero energia. Quero parecer comercial de rede americana, com fogo de artifício se precisar." Ninguém riu, mas dava pra sentir que todo mundo ali concordava com ele mais do que comigo.
Não briguei. Reescrevi a abertura naquela mesma noite, coloquei confete digital que eu detestava, aumentei o volume da trilha até parecer propaganda de loja de colchão. Fiz isso porque precisava do dinheiro, porque tinha equipe pra pagar, porque brigar por "visão autoral" com um cliente de seis dígitos parecia luxo que eu não tinha condição de bancar.
Passei dois meses nesse projeto brigando comigo mesma pra entregar exatamente o que ele pedia, mesmo sabendo que aquilo ia sair ruim. E saiu ruim mesmo. O vídeo final tinha tudo que um vídeo institucional careta costuma ter — cortes previsíveis, trilha genérica, closes desnecessários no logo da empresa toda vez que alguém falava alguma coisa bonita. Eu assisti a versão final sozinha, no escritório, de madrugada, e senti uma vergonha física. Não porque o trabalho tava tecnicamente errado. Porque eu sabia, olhando, que não tinha nada meu ali dentro.
O Roberto amou. Pagou certinho, ainda me indicou pra dois amigos empresários dele. Devia estar feliz. Fiquei péssima.
Foi minha equipe — os mesmos dois freelancers, que naquela altura já eram praticamente sócios informais, Juliana na fotografia e Pedro na edição — quem me chamou pra conversa. Foi o Pedro que falou a frase que eu não esqueço:
— Camila, a gente entrou nessa empresa achando que você tinha visão. Que ia fazer diferente. Se a gente for só fazer o que cliente careta pede pra pagar boleto, eu prefiro voltar pra agência grande, que pelo menos paga melhor pra fazer a mesma merda.
Doeu. Doeu muito, porque ele tinha razão completa. Fiquei tentada, por um segundo, a rebater — a dizer que ele não entendia o quanto era difícil manter uma empresa funcionando, que princípio não paga conta de luz, que ele podia falar bonito porque não era o nome dele assinando embaixo do contrato social. Mas segurei a língua, porque no fundo eu sabia que aquilo era só orgulho ferido tentando se defender.
A Juliana, que tinha ficado calada durante quase toda a conversa, completou baixinho, quase sem querer confrontar: — Camila, a gente topou trabalhar contigo porque viu alguma coisa diferente. Não adianta ter razão pra sobreviver se a gente for esquecer por que começou.
Foi naquela noite, depois dessa conversa, que eu peguei o roteiro que tinha escrito lá em dois mil e vinte e dois — aquele mesmo que o Ronaldo tinha achatado com uma risada — e reli pela primeira vez em quase um ano.
Era sobre minha avó. Sobre os últimos meses dela, quando a memória já ia embora aos pedaços e ela confundia meu nome com o da irmã dela, morta havia trinta anos, mas ainda lembrava perfeitamente como fazer pão de queijo, as mãos sabendo o movimento mesmo quando a cabeça já não sabia mais quase nada. Passei os últimos dois anos da vida dela indo visitar toda semana, sentando do lado dela na cozinha enquanto ela trabalhava a massa sem precisar olhar pra receita nenhuma, e uma parte de mim sempre soube que aquilo era um roteiro, mesmo antes de eu ter coragem de escrever. Chamei o roteiro de "As Mãos Lembram".
Reler aquele texto, quase um ano depois de ter escrito, foi estranho de um jeito bom. Reconheci cada escolha que eu tinha feito instintivamente, sem saber explicar na época por que funcionava — o silêncio antes da cena da farinha, a decisão de nunca mostrar o rosto da avó em close até o último terço do filme, deixando só as mãos contarem a história primeiro. Foram exatamente essas escolhas, eu descobriria bem mais tarde, que fizeram o Ronaldo reconhecer alguma coisa nele mesmo.
Reescrevi em duas semanas, trabalhando de madrugada depois do expediente, exatamente do jeito que eu tinha escrito o primeiro. Chamei a Juliana pra fotografar, de graça, prometendo pagar quando desse. Chamei uma atriz amiga, a Denise, que topou fazer por cachê simbólico porque acreditou no roteiro. Pra fazer a personagem da avó, precisei de alguém mais velha, e escolhi a Dona Terezinha, mãe de um amigo do Pedro, que nunca tinha atuado na vida e que decorou as falas sentada na cozinha dela, repetindo baixinho enquanto fazia o almoço de verdade.
Filmamos em três dias, num apartamento emprestado da tia da Juliana, com um orçamento que dava vergonha até de falar em voz alta — comprei farinha, manteiga e queijo de verdade pro pão de queijo da cena principal porque não tinha dinheiro pra fingir com massa de modelar, e isso significou refilmar a mesma cena quatro vezes porque a Dona Terezinha ia comendo o resultado entre as tomadas e ríamos tanto que estragava o áudio.
No segundo dia de filmagem, o HD externo onde a Juliana guardava o material do primeiro dia deu problema. Ficamos seis horas tentando recuperar os arquivos, eu sentada no chão daquele apartamento emprestado, calculando mentalmente quanto custaria refazer tudo se a gente tivesse perdido o dia inteiro. Recuperamos, no fim, com um programa pirateado que o Pedro achou numa madrugada de desespero. Mas aquelas seis horas me ensinaram uma coisa sobre quanto eu queria aquilo — porque em nenhum momento, nem no pior momento daquele susto, passou pela minha cabeça desistir.
Terminei a montagem em outubro, sozinha, de madrugada, revendo a mesma cena da farinha talvez umas cinquenta vezes até achar o corte certo. Faltavam dois dias pro prazo de inscrição do edital quando percebi que o formulário exigia uma sinopse de até duzentos caracteres — e eu tinha escrito quatrocentos e cinquenta, apaixonada demais pela própria história pra conseguir resumir. Refiz o texto às três da manhã do dia do prazo, sentada na cama, tremendo de cansaço e cafeína.
Inscrevi no Edital de Fomento à Produção Audiovisual Independente de São Paulo em novembro de dois mil e vinte e três, às vinte e três horas e quarenta minutos, vinte minutos antes do sistema fechar, praticamente sem esperança nenhuma. É um edital enorme, recebe centenas de inscrições, e a seleção é cega — o roteiro e o material são avaliados sem o nome do diretor, só um número de protocolo. Isso eu sabia. O que eu não sabia, e só fui descobrir muito depois, era quem compunha a comissão julgadora daquele ano.
Fiquei sabendo do resultado por e-mail, num sábado de manhã, tomando café ainda de pijama. Selecionada. "As Mãos Lembram" tinha sido um dos doze curtas escolhidos, entre cento e oitenta e sete inscrições, pra receber recurso de finalização e exibição na Mostra de Cinema Independente de São Paulo, marcada pra abril do ano seguinte.
Chorei que nem boba na cozinha, sozinha, com o celular na mão. Liguei pra Juliana primeiro, depois pro Pedro. Os dois gritaram tanto que meu vizinho bateu na parede.
O que eu não sabia — e essa é a parte que eu ainda hoje tenho dificuldade de acreditar quando conto — é que dois meses antes daquele e-mail, numa reunião da comissão avaliadora que eu obviamente não presenciei, meu curta tinha sido discutido em voz alta por cinco pessoas que nunca souberam, até o resultado final ser fechado, quem tinha dirigido aquilo.
Fiquei sabendo dos detalhes dessa reunião só em abril, na noite da exibição, através de uma conversa que eu nunca vou esquecer.
A Mostra de Cinema Independente acontece no CineSesc, na Rua Augusta, e a sessão dos curtas selecionados costuma lotar. Cheguei cedo, nervosa de um jeito que eu nunca tinha sentido antes, nem nas piores reuniões de pitch da minha vida. Usei um vestido que comprei especialmente pra ocasião, e troquei de roupa três vezes antes de sair de casa, sem conseguir decidir se queria parecer profissional ou parecer alguém que merecia estar ali por direito.
A sessão daquela noite tinha seis curtas, o meu era o quarto da lista. Sentei na terceira fileira, entre a Juliana e o Pedro, e nos primeiros três filmes eu quase não consegui prestar atenção, ocupada demais controlando a respiração e checando o relógio do celular escondido dentro da bolsa. Quando o quarto título apareceu na tela — "As Mãos Lembram, de Camila Duarte" — senti um friozinho estranho subir da barriga até a garganta, tipo quem vai entrar numa montanha-russa e já não pode mais descer.
O filme passou em silêncio absoluto na sala. Isso, pra quem nunca sentou numa sala de cinema lotada, é uma coisa difícil de descrever — o silêncio de duzentas pessoas prestando atenção é diferente do silêncio de duzentas pessoas entediadas, e dá pra sentir a diferença na pele. Ouvi gente fungando na fileira de trás, bem na hora da cena da farinha. A Juliana segurou minha mão sem falar nada.
Quando os créditos subiram e a luz da sala começou a acender aos poucos, veio o aplauso — não um aplauso educado de festival, um aplauso que durou tempo demais pra ser só cortesia, com gente até de pé em algumas fileiras lá atrás. Fiquei paralisada na cadeira por uns bons segundos, sem saber se devia levantar, acenar, sorrir, chorar. Fiz um pouco de tudo isso ao mesmo tempo, provavelmente parecendo ridícula, mas sem me importar.
Depois da sessão teve um coquetel no saguão, desses padrão de festival, vinho barato em copo plástico e queijo em palito. Eu tava conversando com a Juliana quando alguém tocou meu ombro por trás.
Era o Ronaldo.
Por um segundo achei que ele tinha vindo só pra dar os parabéns, tipo aquele gesto automático que a gente faz por educação. Mas o rosto dele tava diferente. Meio pálido, meio sem jeito, um jeito que eu nunca tinha visto nele em quatro anos de trabalho.
— Eu preciso te contar uma coisa — ele disse, e a voz saiu mais baixa que o normal. — Eu tava na comissão avaliadora desse edital.
Demorei um segundo pra processar. Não sabia disso. Ninguém sabe quem compõe a comissão até o resultado sair publicado, e mesmo aí só saem os nomes, sem dizer quem votou em quê. Fiquei tentando lembrar se tinha visto o nome dele naquela lista, publicada dois meses antes num PDF enorme que eu tinha lido correndo, procurando só o meu próprio resultado. Talvez tivesse passado batido. Ou talvez eu tivesse simplesmente evitado prestar atenção, porque uma parte de mim não queria pensar nele naquele momento de vitória.
— Você lembra que eu falei que ia viajar em outubro do ano passado? — ele perguntou. — Não foi viagem. Foram três fins de semana trancado numa sala de reunião com mais quatro pessoas, lendo cento e oitenta e sete roteiros e assistindo material de mais de cem projetos. A gente discutia protocolo por protocolo. Brigava mesmo, às vezes. Teve gente que queria dar o recurso principal pra um documentário sobre mobilidade urbana, achando o seu curta "íntimo demais pra ter impacto social relevante" — foi a frase exata que uma das avaliadoras usou.
Ele deu um risinho sem graça, nada parecido com a risada da festa.
— Eu bati o pé. Falei que impacto social não precisa ser sobre política pública pra ser verdadeiro. Falei que uma cena de avó fazendo pão de queijo enquanto esquece o próprio nome dizia mais sobre memória e dignidade do que qualquer discurso. A gente votou, o protocolo duzentos e catorze passou por quatro votos a um.
E aí veio a segunda parte da história, a que eu realmente não esperava.
— Depois que eu vi que era seu, fiquei pensando numa coisa que talvez você não saiba — ele continuou, e pela primeira vez em quatro anos de trabalho eu vi o Ronaldo parecer inseguro, procurando as palavras certas do jeito que ele nunca precisava procurar em nenhuma reunião de diretoria. — Aquela cena, no meio do curta, quando a personagem da avó pega a farinha com as duas mãos, sem olhar pra receita, porque as mãos já sabem o caminho sozinhas... Eu bati numa cena parecida com essa. De verdade. Com minha própria avó, lá em Portugal, quando eu tinha uns dezoito anos e ela já não reconhecia mais meu pai, filho dela, mas fazia pão caseiro toda quinta-feira sem errar uma etapa.
Ele parou, olhou pro copo de vinho ruim como se aquilo pudesse ajudar a terminar a frase.
— Nunca contei isso pra ninguém no mercado. Nunca botei numa proposta, nunca mencionei em nenhuma reunião de diretoria. Cheguei a escrever um tratamento sobre isso, faz uns dez anos, guardado numa pasta que eu nem abro mais. Sempre achei bobo demais, pequeno demais pra virar filme de verdade — coisa íntima que ninguém ia querer financiar, ninguém ia querer ver numa sala de cinema.
Ele riu, mas dessa vez era um riso diferente, sem nenhuma condescendência dentro, mais parecido com quem ri pra não deixar a voz quebrar.
— Você fez o filme que eu nunca tive coragem de fazer. Com um orçamento que eu ia rejeitar de cara se alguém me apresentasse numa reunião de produção. E na única vez que você me contou sobre isso, na sua cara, eu ri de você.
Fiquei quieta um tempo, tentando entender o tamanho do que ele tinha acabado de admitir. Não era só um pedido de desculpas disfarçado. Era ele reconhecendo que a razão de ter rido, naquela festa, talvez nem tivesse muito a ver comigo — tinha a ver com alguma coisa que ele mesmo enterrou fundo demais pra encarar, e que ver alguém fazendo aquilo, sem medo, na cara dura, com quase nenhum recurso, tocou num lugar que ele preferia não mexer.
— Por que você nunca fez esse filme? — perguntei, e não perguntei pra provocar. Perguntei porque realmente queria saber.
— Porque tinha medo de ser pequeno demais — ele respondeu. — Achei, durante anos, que fazer filme "grande" era fazer filme com orçamento grande, elenco grande, tema grande. Levei muito tempo pra perceber que "grande" e "pequeno" não têm nada a ver com o tamanho do orçamento.
Não abracei ele. Não foi aquele tipo de cena de reconciliação bonita que a gente vê em filme, com música subindo e as duas pessoas se entendendo perfeitamente em trinta segundos. Só fiquei ali, com o copo de vinho ruim na mão, deixando aquilo tudo assentar, enquanto o coquetel continuava em volta da gente, gente rindo, gente comendo queijo em palito, sem fazer ideia da conversa que acabava de acontecer bem ali no meio.
"As Mãos Lembram" ganhou Melhor Curta-Metragem naquela mostra. O anúncio veio no fim da noite, numa cerimônia pequena no mesmo saguão do CineSesc, e quando falaram meu nome eu levei um tempo bom pra registrar que era comigo mesmo — fiquei olhando pra Juliana, meio boba, até ela me empurrar em direção ao palco. Subi ali com o mesmo vestido que eu tinha trocado três vezes antes de sair de casa, segurando um troféu de acrílico simples, tentando não chorar no microfone e fracassando completamente nisso. Consegui agradecer a Juliana, o Pedro e a Dona Terezinha antes de a voz falhar de vez, e lembro de procurar o Ronaldo com os olhos no meio da plateia, sem saber exatamente por quê — talvez só pra confirmar que aquilo tudo era real, que a mesma pessoa que tinha rido da ideia agora estava vendo ela virar prêmio na minha frente, à distância de poucos metros, aplaudindo como qualquer outra pessoa da plateia, sem nenhum privilégio de saber, ainda, que o protocolo duzentos e catorze era meu.
Foi selecionado depois pra mais três festivais — um em Curitiba, outro em Recife, e um terceiro em Portugal, o Curtas Vila do Conde, que aceitou o filme justamente na cidade de onde tinha vindo a avó do Ronaldo, coisa que eu só fui perceber e sentir o peso quando já tava com a passagem comprada. Não fui pessoalmente pra Portugal — não tinha orçamento pra isso —, mas mandei um vídeo de agradecimento gravado no meu quarto, e a Juliana jura até hoje que a sessão de lá também terminou em aplauso longo.
A Ponto Cego Filmes, que quase fechou em julho do ano anterior, começou dois mil e vinte e quatro com uma fila de clientes que eu nunca precisei correr atrás — eles chegavam através de gente que tinha visto o curta, gente que queria trabalhar com quem tinha aquele "olhar", a mesma palavra que o Ronaldo tinha usado quatro anos antes pra dizer que eu não tinha. Uma agência de publicidade de médio porte me chamou pra dirigir a primeira campanha institucional que eu já assinei com meu próprio nome no crédito de direção, não só de produção. Uma marca de bem-estar me contratou pra uma série de mini-documentários sobre memória afetiva, claramente inspirados no meu curta, e dessa vez ninguém questionou meu enquadramento em nenhuma reunião.
Contratei mais duas pessoas em fevereiro — um editor de som, porque eu tinha percebido, assistindo meu próprio filme repetidas vezes numa sala escura de festival depois da outra, o quanto o áudio caseiro deixava a desejar em telas maiores, mesmo que ninguém tivesse reclamado disso em voz alta, e uma produtora executiva júnior, recém-formada, cheia de energia, porque eu não aguentava mais ser a única pessoa correndo atrás de nota fiscal e orçamento às sextas de manhã enquanto tentava, ao mesmo tempo, pensar em roteiro novo. A Juliana virou sócia de verdade, com participação na empresa, não mais freelancer. O Pedro também. Foi a primeira reunião societária da minha vida em que eu chorei de felicidade em vez de choro de desespero.
O Roberto Ventura, o cliente das concessionárias, me chamou de novo em março pra fazer o vídeo institucional do aniversário de dez anos da empresa dele. Ligou pessoalmente, coisa que ele não tinha feito da primeira vez — mandou o pedido pelo WhatsApp da assistente. Dessa vez foi ele mesmo, animado, contando que tinha visto uma matéria sobre o prêmio do meu curta numa revista de negócios da cidade e que queria "aquele mesmo toque especial" no vídeo novo. Ofereceu quase o triplo do valor do primeiro projeto, sem eu nem precisar negociar.
Marquei uma reunião com ele pra discutir o escopo, mais por educação do que por real interesse, porque uma parte de mim já sabia, antes mesmo de sentar na sala, qual ia ser minha resposta. Ele chegou entusiasmado, trouxe referências de vídeos de outras concessionárias, os mesmos closes em logo, a mesma trilha orquestral genérica que eu tinha odiado fazer da primeira vez. No meio da conversa, ele falou uma frase que fechou tudo pra mim: "Faz igualzinho o outro, só que com mais orçamento agora. Aquela fórmula funciona."
Aquela fórmula. Como se o vídeo que eu mais tinha vergonha de ter feito na vida fosse, pros olhos dele, uma fórmula de sucesso a ser repetida.
Recusei ali mesmo, naquela reunião, sem enrolar.
Não por birra, nem pra provar ponto nenhum pra ninguém. Recusei porque, dessa vez, eu sabia exatamente o que ia acontecer se eu aceitasse: ia entregar outro vídeo sem alma nenhuma dentro, só pra engordar o caixa, e ia sentir de novo aquela vergonha de madrugada assistindo o resultado sozinha. Expliquei pro Roberto, com calma, que a Ponto Cego tinha mudado de direção criativa e que talvez outra produtora servisse melhor pro que ele buscava. Ele ficou visivelmente confuso — pra ele, recusar um contrato de seis dígitos por causa de "direção criativa" era quase um absurdo, o tipo de luxo que ele achava que ninguém no meu tamanho de empresa podia se dar.
— Você tem noção do valor que tá deixando na mesa? — ele perguntou, sem entender.
— Tenho — respondi. — E é exatamente por isso que eu tô recusando com calma, sem drama nenhum. Não é sobre o valor, Roberto. É sobre o que eu vou sentir vendo esse vídeo pronto daqui a seis meses.
Aprendi, do jeito mais difícil possível, que o dinheiro de um cliente que não respeita sua visão custa muito mais caro do que parece no contrato — porque o preço real não aparece na nota fiscal, aparece meses depois, na hora de olhar pro próprio trabalho e sentir vergonha em vez de orgulho.
Indiquei outro colega pro Roberto, um diretor que eu sabia que ia entregar exatamente o que ele queria, sem culpa nenhuma envolvida, porque genuinamente gostava daquele estilo. Roberto ficou surpreso com a indicação, perguntou se eu tinha certeza da minha decisão. Tinha, e falei isso olhando pra ele sem hesitar, coisa que a Camila de um ano antes provavelmente não teria conseguido fazer.
Reencontrei o Marcelo Prado, aquele produtor da Vila Olímpia que tinha comentado sobre "mulher pensando em plano sequência" no pitch da marca de cosméticos, num evento de mercado em setembro de dois mil e vinte e quatro — o mesmo tipo de evento que eu passei quase um ano inteiro evitando. Ele se aproximou sozinho, sem a arrogância de antes, e disse que tinha assistido "As Mãos Lembram" numa exibição fechada pra profissionais do setor, organizada pela própria associação de produtores da cidade.
— Fiquei pensando em você depois de ver esse filme — ele falou, meio sem jeito, evitando meu olhar direto. — Lembrei daquele pitch, lá atrás.
Fiquei esperando uma desculpa, ou pelo menos um reconhecimento mais direto do que ele tinha dito naquele dia. Não veio. Ele só comentou, genuinamente impressionado, sobre a fotografia, sobre a atuação da Dona Terezinha, sobre como "não esperava aquele nível de sensibilidade" — e nem percebeu, aparentemente, o quanto essa frase ainda carregava o mesmo preconceito de antes, só que embrulhado em elogio dessa vez.
Pensei em corrigir ele, em explicar com paciência por que aquele elogio ainda carregava o mesmo peso de antes, só embrulhado diferente. Cheguei a abrir a boca pra começar a frase. Mas olhei pro rosto dele, genuinamente satisfeito consigo mesmo por ter feito o que ele considerava um gesto generoso, e percebi que não valia o esforço. Não tinha mais estômago pra gastar energia tentando fazer alguém entender uma coisa que só ia entender de verdade quando quisesse, no tempo dele, do jeito dele, se é que um dia ia entender. Só agradeci pelo comentário, terminei minha taça de suco de laranja — parei de beber vinho ruim de festival depois daquela noite no CineSesc, decisão pequena, mas que carrego até hoje como símbolo de alguma coisa — e fui conversar com outra pessoa.
Hoje, dezembro de dois mil e vinte e quatro, a Ponto Cego Filmes tem seis pessoas fixas na equipe, um escritório de verdade, sem dividir sala com estúdio de podcast, e uma lista de espera pra próximo curta que eu ainda nem terminei de escrever. Fechamos o ano com faturamento sete vezes maior que o do ano anterior, número que eu ainda repito baixinho pra mim mesma às vezes, tipo quem não acredita totalmente que aconteceu de verdade.
O Ronaldo virou, de um jeito estranho que eu não esperava, uma espécie de mentor à distância — não porque eu precisasse dele pra validar mais nada, mas porque, depois daquela noite no CineSesc, ele começou a me indicar pra coisas, sem nunca mais tentar ensinar como eu devia dirigir. Soube, por terceiros, que ele finalmente tirou aquele tratamento antigo da gaveta — o roteiro sobre a avó dele em Portugal — e começou a desenvolver com calma, sem pressa, sem tentar transformar em nada "grande demais". Não sei se um dia vai filmar. Mas sei que, se filmar, vai ser diferente do que teria sido há cinco anos.
A Dona Terezinha, a atriz de estreia com quase setenta anos que decorou as falas na cozinha de casa, foi convidada pra outro curta esse ano, dirigido por outra pessoa. Ela me manda foto de vez em quando, do set, sempre com a mesma legenda: "Olha eu, atriz." Guardo cada uma dessas fotos.
Às vezes eu penso em quantos roteiros bons ficam guardados numa gaveta, ou apagados de um HD, só porque a primeira pessoa que ouviu sobre eles decidiu rir em vez de perguntar mais. Penso em quantas Camilas por aí desistiram na hora exata em que eu quase desisti, naquela tarde de julho com a planilha de fechamento da empresa aberta na tela, sem ninguém pra lembrar que o valor de um trabalho não depende de quem está disposto a enxergar ele primeiro.
E fico pensando também: será que a gente só descobre o tamanho real do próprio trabalho quando alguém que nunca soube quem éramos julga só pelo que fizemos — sem o peso de saber o nosso nome, sem a sombra de quem a gente já foi antes, só o que a gente é, de verdade, quando ninguém tá olhando pra etiqueta?
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